BOLO DE CASAMENTO – História e curiosidades sobre a delícia das festas

Já decidiu sobre o bolo de seu casamento? Qual sabor, cor e tamanho? De qualquer forma, saber mais sobre os costumes ao redor do mundo e através do tempo, vai te empoderar neste assunto. Neste texto e no próximo da semana que vem, Tatiana Branco, proprietária da Reino Branco Ateliê do Açucar, vai nos contar tudo sobre essa delícia presente nas festas. 

Assim que recebemos um convite de casamento, já começamos a imaginar duas coisas: como será o vestido da noiva? E como será o bolo? De fato, o segundo momento de maior expectativa nos casamentos, dos mais simples e intimistas até os grandes banquetes luxuosos, é ver a mesa do bolo! Terá quantos andares, com flores, com noivinhos, ou pombinhos, muita pasta americana ou os consagrados naked cakes, o bolo sempre reina absoluto no casamento, mostrando o estilo, personalidade e paladar do casal. Mas, será que sempre foi assim, será que sempre existiram bolos de casamento?

HISTÓRIA

Na Roma antiga, temos registros da união ser celebrada com um pão de cevada. O noivo comia um pedaço e “quebrava” o restante na cabeça da noiva (!!!) simbolizando o rompimento da virgindade e o domínio masculino. Ainda bem que esta tradição acabou (as noivas agradecem), mas sabe-se que durante o século XIX na Escócia, este mesmo ritual era celebrado com um bolo de aveia.
Já os gregos, por volta do século IX a.C., celebravam a deusa Artemis com um preparado à base de mel e pão, muitas vezes acrescido de frutas secas e gengibre, para celebrar a família.

Entre as primeiras receitas que se tem registro, a que mais se aproxima dos bolos de hoje é uma receita italiana, de amêndoas, servida em Nápoles, em 1478.
Na Idade Média, o ritual consistia de empilhar os ‘bolos’, que nada mais eram que pequenos pães de trigo e adoçados com frutas, na frente dos noivos e eles deveriam se beijar sem derrubar tal pilha. O significado? Um casamento próspero e com muitos filhos para os casais que não derrubavam a pilha de pãezinhos.

No período renascentista, os banquetes começaram a dar destaque para os bolos, que se tornaram atração principal e importante ítem da decoração das mesas.
Por volta do século XVII temos relatos vindos da Europa do início dos bolos brancos de casamento como conhecemos atualmente, de vários andares e decorados com toda pompa. Isso aconteceu junto com muitas invenções e novas tecnologias daquela época. O açúcar branco era bastante escasso, consequentemente mais caro. Portanto, o bolo branco de casamento era sinal de status, de poder daquelas famílias. As famílias menos abastadas adoçavam seus bolos com frutas secas, como ameixas, e quando podiam, cobriam com uma pasta de amêndoas e açúcar (algo como um marzipã). Com isso, os bolos dos casais mais simples era de coloração mais bege e marrom.
Nesse período, na Inglaterra, também era servida a torta da noiva (bride’s pie), que variava entre pães doces e até tortas de carne, que tinha como objetivo algo como nosso bolo de Santo Antônio: quem achasse um anel de vidro escondido no recheio era a próxima a se casar.A primeira receita de pasta americana (ou sugar paste) que se tem noticia está em uma obra chamada “Delights for Ladies”, de 1609. Leva açúcar, amido e goma tragacanto. Em 1769, Mrs. Raffald publicou um livro, “The Experienced English Housekeeper”, contendo uma receita de bolo, outra de marzipã, e de glacê real.

Rainha Victoria

Rainha Victoria

Já na Era Vitoriana (século XIX), também na Europa, surgiram os bolos de andares com muitas texturas e decorações elaboradas, seguindo o estilo da corte da rainha Vitória, que foi a primeira monarca a casar inteiramente de branco e ter seu opulento bolo de noiva. Durante seu reinado, o bolo adquiriu seu status na festa de casamento. Os bolos deste período eram de frutas escuras e cobertura branca, com delicadas padronagens e finamente decorado com flores e folhagens e até pérolas. Inicialmente neste período os bolos tinham apenas um andar, pois ainda não existiam os pilares de sustentação. Os outros andares foram acrescentados, mas eram no princípio camadas de bolo apoiadas em “blocos” de açúcar, pois se temia que o peso de várias massas empilhadas desmoronasse (esse medo ainda é muito real para os confeiteiros). Este problema foi contornado para o casamento da filha da rainha Vitória, a princesa Luisa, que em 1871 teve um bolo sustentado de 1m52 de altura. Neste período, os bolos chegavam a pesar mais de 100kg e podiam atingir alturas acima dos 2 metros. Foi também durante a Era Vitoriana que os bolos passaram a ser divididos em camadas e recheados com cremes diversos, como os conhecidos creme parisiense, ganache e o creme italiano. Os recheios à base de manteiga surgiram apenas a partir do século XX.

As notícias do casamento da rainha Vitória se espalharam, outros membros da elite começaram a seguir a nova tendência, e, ao final da Segunda Guerra Mundial (1945) e da influência do cinema americano, a tradição do Casamento Branco Vitoriano chegou à classe média e se popularizou. A cor branca não apenas mostrava a riqueza das famílias, mas também a pureza da noiva.

Victoria e Albert (Getty Images)

Victoria e Albert (Getty Images)

Também durante a Segunda Guerra na Inglaterra, devido ao racionamento de insumos, surgiram os bolos falsos (de papelão) que armazenavam o bolo real e mais modesto do lado de dentro.
Com a chegada da farinha de trigo refinada e do fermento na segunda fase da Revolução Industrial, os bolos de frutas pesados e escuros começaram a ter textura mais leve e delicada. Na Inglaterra e alguns outros países, os bolos de frutas e marzipã ainda são muito solicitados.

No Brasil, os sabores mais pedidos ainda são o tradicional chocolate com brigadeiro, e baba de moça com nozes, além do bolo bem casado (com leite condensado cozido ou doce de leite), e os tradicionais regionais, como o bolo de rolo recheado de goiabada.

BOLOS PELO MUNDO

China: O bolo de casamento tradicional chinês é colossal, uma criação de muitas camadas, conhecidas por Lapis Surabaya. As camadas representam a escalada de sucesso dos noivos. A noiva e o noivo cortam o bolo de baixo para cima, oferecendo as primeiras fatias aos avós e aos pais, sendo todas servidas pelos recém-casados.

Dinamarca: O bolo cornucópia é um bolo em forma de anel, feito de amêndoas, creme pâtissier e marzipã. O exterior é decorado com um trabalho de açúcar, e o centro é preenchido com fruta fresca, doces, e bolo de amêndoa. Para evitar a má sorte, os recém-casados cortam o bolo juntos; todos os convidados têm direito a uma fatia.

Inglaterra: O bolo de casamento tradicional é o bolo inglês, feito de passas, amêndoas, cerejas, e é coberto com marzipã. E ao invés de guardarem só uma fatia para o próximo aniversário de casados, os britânicos guardam o topo do bolo, chamados o “christening cake”, até ao nascimento do primeiro filho.

França: O bolo de casamento tradicional é o famoso croquembouche, uma pirâmide de profiteroles recheados com creme, revestida em fios de caramelo. Outra oferta popular são os múltiplos bolos ‘esponja’ redondos, colocando o maior na base até ao menor no topo. Neste caso podem existir até 10 camadas.

Itália: Existem vários bolos de casamento, dependendo da região, e em alguns locais sequer existe bolo de casamento. Nas regiões onde é servido bolo de casamento, existem costumes variados, como servir mille-foglia (mil folhas), um bolo italiano feito de camadas de massa folhada, creme pâtissier, chocolate, creme de baunilha, e coberto com morangos.

Japão: No Japão (e em todo o mundo), os bolos de casamento são caros. Para reduzir os custos, muitos optam por uma enorme réplica de plástico (bolo fake) por cima de um bolo menor. O bolo é “cortado” pelos noivos e significa o primeiro ato realizado como marido e mulher. Bolos temáticos também são muito procurados por lá.

LENDAS, SUPERSTIÇÕES E TRADIÇÕES

Na Inglaterra durante a Idade Média, o ritual dos bolos de casamento consistia de uma massa feita de trigo que era jogada esfarelada sobre a noiva como símbolo de fertilidade. Dessas antigas tradições, ainda hoje os casais seguem alguns rituais para atrair boas energias, fertilidade e harmonia.
Cortar o bolo juntos, durante a festa, simboliza o futuro em comum e um acordo de uma vida única prestes a ser compartilhada com a sociedade. Para garantir a fertilidade, a noiva deve comer o primeiro pedaço. Também era costume amarrar pequenos amuletos de boa sorte em pedaços de fita entre as camadas de bolo, e hoje, as noivas fazem esta brincadeira durante os chás (de panela, de cozinha, de lingerie, chá bar…).
Muitos casais guardavam o topo de seu bolo de casamento para servir na cerimônia de batismo do primeiro filho. Em alguns países na Europa e Estados Unidos o casal guarda o topo congelado para comemorar o primeiro ano de casados, tradição esta que está se popularizando no Brasil.

Bolo Reino Branco

Bolo Reino Branco

Os bolos de casamento de três andares são os mais populares e tradicionais, pois representam as três alianças do casal: o noivado (o compromisso), o casamento e a eternidade.

Já o bem casado representa as duas partes que se unem e são seladas pela cumplicidade e respeito. Reza a lenda que todos que o saborearem abençoarão os noivos com sorte e felicidade.

 

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Tatiana Branco é nutricionista, proprietária da Reino Branco Ateliê do Açúcar, empresa que oferece bolos e tortas para todas as ocasiões. 

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